domingo, 28 de agosto de 2011



Peregrinus

De que azul tu vieste, peregrinus?
Em que campo, em que rochas tu vivias?

Nas tundras, nos desertos, nas florestas,
ou onde escondo as minhas calmarias?

Por ti, alimentei brilhos e gozos,
sem dar-me conta de que partirias!

Tu, que habitavas todos os meus sonhos,
entristeceste as minhas alegrias…

Tu, que me abriste tantos oceanos,
arrancaste, de mim, todas as crias!

Eu já nem sei se é morte ou se é rebento,
meu alimento de todos os dias.

Se é saudade, ou são meros delírios…
Coisas de quem escreve poesias.


Kátia Drummond


Foto: Ron Erwin

domingo, 12 de junho de 2011


MIRAGEM

Se eu soubesse que o amor matava a gente,
eu matava ele primeiro, pra ele não me matar.
(Anastácia)

Como o último poeta solitário,
em meio aos raros seres peregrinos,
tracei no adeus um novo itinerário,
contrariando sendas e destinos.

No breu da morte, a tatear a vida,
nem sei se ainda vivo ou sou miragem.
Presa que estou na engrenagem antiga.
Nas lanças afiadas da ferragem.

Já nem sei se existo ou se sou sonho.
Derivo na fronteira delicada
que faz todo sujeito ser alguém
e a plenitude transformar-se em nada.

Já não sei se sou prece ou sou escárnio.
Se eu sou o diabo ou se eu sou deus.
Se escuto o badalar do campanário
ou a fé solitária dos ateus.

Tudo que sei, ou que eu acho que sei,
é que a cada dia, a cada aurora,
como uma mãe a amamentar a cria,
alimento-me a alma que ainda chora.

Ao tempo em que fecundo a fantasia
que vira o Universo pelo avesso,
viro criança, cresço, engravido...
E num parto sem dor volto ao começo.


Katia Drummond
Em outono brasileiro. SSA BA 2011

Imagem:  Vlad Gerasimov

domingo, 24 de abril de 2011


APENAS...

Desde quando você esvaneceu,
que me dei conta de que não sou minha.

Sequer o sonho em mim sobreviveu!
Hoje eu amargo o meu sofrer sozinha.

Um cão fiel, distante do seu dono.
Perdido, em abandono, na cidade.

Como hei de sublimar essa saudade,
se até minha esperança já morreu?

Se eu sem você perdi minha metade.
Se sem você eu sou apenas eu.

Agora, em nosso ninho, alma cativa,
sublimo a dor… E finjo que estou viva.


Kátia Drummond

Imagem: Bettmann CORBIS – Falco Peregrinus alimentando filhotes. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011


INEXORAVELMENTE

Vivo em dores...
Porque o amor, em mim,
não sopra talhos
nem costura cortes.

Vivo em chamas...
Porque a saudade, em mim,
queima as raízes
e crema o corpo em cinzas.

Do que fui, restam estilhaços.
Puzzle de peças desencontradas.

Minha luz, em brilho opaco,
não mais irradia sonhos.
Meu sol, a sucumbir no horizonte,
afogou-se nas profundezas do mar.

Eu, princesa dos contos de fadas,
perdi-me nos caminhos florestais...
O vento levou-me as pedras
que marcavam as trilhas.

Restou-me apenas a lição do filho ausente:
“Mãe, roubaram-te do caminho até as pedras?
Danem-se as pedras e os caminhos.”

Quem sabe, daí...  Sobreviverei 
ao inexorável destino que me resta?

Eu, sombra de mim, a vagar incrédula...
Em busca do inóbvio. À procura da paz.


Kátia Drummond
The travelling poet

Imagem: Momatiuk (Death Valley National Park)





quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

DIVINA CRUELDADE

Peço a Deus…
Que me mostre o outro lado.
Que me livre deste fado
de viver longe de ti.

Peço a Deus...
Pelo seu poder divino,
pela força do destino
e do canoro bem-te-vi…

Peço a Deus…
Espírito que me guía,
criador e minha cria,
pela fé que eu não perdi.

Peço a Deus…
Que deixe de crueldade!
Que mate a minha saudade
e me devolva o meu guri.


Kátia Drummond

Foto de Savio Drummond, por Tamir Drummond

quinta-feira, 1 de julho de 2010




RÉQUIEM PARA UM AMOR

Desde o momento em que eu te vi morrendo,
apercebi-me: estava te perdendo.
Olhei pro tempo… Andei léguas pra trás.
A vida veio inteira em minha mente.
Um filme surrealista, tocha ardente,
como um vulcão, uma fera voraz.
Desejei ser a autora do destino.
Vi-me menina, como o Deus Menino,
nos braços da Senhora Mãe donzela.
Ou era uma criança na janela,
olhando os “mascarados” na avenida,
todos querendo se esconder da vida.

A vida, então, pra mim era um brinquedo,
eu não entendia porque tanto medo.
O mesmo medo que me assombra agora,
ao ver você saindo do seu corpo.
Espírito de luz, num corpo morto,
querer ficar, mas tendo que ir embora.
A dor maior era te ver calada,
sangrando a vida, em plena madrugada.
Vi-me sozinha. Não entendi mais nada.
E a morte veio como erva daninha,
matando tudo. E eu ali, parada.

Que gosto amargo, que cansaço imenso.
Você virando um anjo em minha frente.
Deixando de ser mãe e de ser gente,
agonizando no extertor final.
Que sensação sinistra ver teu funeral!
Loucura, ver a terra te cobrindo,
e eu te pedindo pra não ir embora.
Rezando, mesmo sem saber rezar,
buscando alguma força pra me dar.
Vi Deus virar Diabo aquela hora!

A casa parecia um templo antigo,
mal assombrado, sem qualquer amigo.
Uma cena delirante, teatral.
E eu fui me dando conta, de repente,
que eu já não era eu. Eu era alguém.
Sem pai, sem mãe, um animal sem vida.
Um cão lambendo a própria ferida.
Sentei no chão, chorei amargamente.
E desejei ser terra e ser semente.
Fazer você voltar, sobrevivente.

Você saiu de mim como uma ladra.
Silenciosa, cabisbaixa, errante.
E me deixou sozinha e desarmada,
como uma marginal principiante.
Você roubou meus últimos brinquedos.
Você levou todos os meus segredos.
O meu maiô de elástico vermelho.
O meu batom, o meu primeiro espelho.
A bicicleta, o álbum de retratos.
Meus quinze anos, meus sapatos altos.
Meus carnavais e minhas fantasias.
A minha serpentina, o meu confete.
O meu Colégio Santa Bernadete,
minhas colegas, minhas alegrias.

Levou minhas cigarras, meus oitis,
a minha Madragoa, os bem-te-vis.
Levou minha Avenida Beira-Mar.
Levou Jauá, levou meus veraneios,
o barco de painho e meus passeios.
Levou meu São João, meu milho verde.
Meus doces sobre a mesa, meus natais.
O meu acordeon, o meu piano,
os meus concertos e os meus festivais.
Me diga mãe, o que é que eu faço agora,
se sem você eu já nem sonho mais?

Você me levou tudo mãe, até minh’alma!
Em que ternura eu vou buscar a calma?
Em que calor eu vou guardar meu frio,
se até meu coração ficou vazio?
Em qual abraço eu vou guardar meus medos,
se hoje estou em todos os degredos,
se fui deixada ao sabor do vento,
amargurando a cara do meu tempo,
mortificando a dor todo o momento?

Responda, mãe, de onde estás agora.
Dê-me o sinal que eu te pedi outrora.
Se não existe nada além da morte,
entrego a minha vida à própria sorte.
Responda mãe, o que eu pedi um dia,
em nome da esperança que eu perdi,
em nome do poeta e da poesia.
Por cada ideal, cada utopia,
faça os meus versos ter algum sentido,
faça vibrar o eco universal.
Atenda mãe, meu último pedido.
Responda mãe, num gesto maternal.
Valeu ou não, um dia ter nascido?
Valeu ou não, um dia ter vivido?
A morte é o começo, o meio ou o final?


Kátia Drummond

Arte: Peter-Frank


domingo, 11 de abril de 2010



RANCHO PRA QUEM VEM DE FORA

Seu moço que vem de fora,
que traz de bom para mim?
O meu amor não tem hora,
o meu cantar não tem fim.
Seu moço que vem de fora,
goste um pouquinho de mim.

Sei fazer colar bonito,
sei fazer versos de amor.
Sei fazer pote de barro,
sei cantar sem ser cantor.
Sei bordar o meu vestido
e esconder a minha dor.

Seu moço que vem de longe,
que tem de bom pra me dar?
Pra você eu tenho a aurora
e tenho a luz do luar.
Seu moço que vem de longe,
que tem de bom pra me dar?

Eu sou a filha mais velha,
meu saber eu vou contar.
Sei de onde vem o rio,
sei das estrelas do mar.
Sei pra onde vai a lua,
sei sempre o sol onde está.

Seu moço que vem de fora,
me responda sem pensar:
em que caminhos da vida
eu posso amor encontrar?
Se escondido nas flores
ou nas estrelas do mar.

Se nas flores, colho todas.
Se no mar, vou me afogar.
O meu amor não tem hora,
é sem fim o meu cantar.
Seu moço que vem de fora,
que tem de bom pra me dar?

Kátia Drummond

Arte: Nasuko