Poemas de Sótão e Porão II®.

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Nome: Katia Drummond
Local: Salvador, Bahia, Brazil

DEDICO ESTE ESPAÇO AOS CAÇADORES DE ARCO-ÍRIS. Não perguntem quem sou. Leiam meus versos. Antes que o sol apague! [Katia Drummond]

domingo, 1 de novembro de 2009



SILÊNCIO NO PELÔ

Ao mestre Neguinho do Samba

Com ternuras e tristezas,
eis toda a minha saudade.
A minha sincera dor.

A dor de todos os sons
que hoje choram no silêncio
dos tambores do Pelô.

Kátia Drummond
The Travelling Poet


Arte: Telma Weber – Artista plástica natural de Cachoeira, Bahia, Brasil.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009





DEVANEIO

Eu escrevo, pelo dom de existir.
E, por viver, ter alma pra sentir.

Eu escrevo não porque apenas sinto.
Mas pela mágica fogosa do instinto.

Eu escrevo, não por força da magia.
Mas por ser, mais que poeta, poesia.


Kátia Drummond
The Travelling Poet


quarta-feira, 14 de outubro de 2009




PROVENÇAL AMOR

Sou escrava dos que amam, e proclamam
em suas trovas, o provençal amor.
Daqueles que deliram, e gemem, o seu fervor.
Sem carta de alforria... E não reclamam!
Cativa exposta na catasta, posta à venda.
Submissa aos que buscam a bela prenda,
eis-me faminta, reduzida ao banzo.
Até nele sucumbir... Não de esperas.
Mas de amores a brotar nas primaveras!
A fluir nas águas doces dos seus lagos,
com brisas frescas a sussurrar afagos.
Até, sôfrega, alcançar a sua margem.
E fazer do seu corpo o cemitério,
onde, em prantos e encantos, sem mistério,
darei, por fim, meu sôfrego suspiro.
E, em êxtase, em versos terminais,
enterrarei meus derradeiros ais.
Até transformar minha quimera
no amor que renasce do suplício,
que vivifica e revigora o vício.
O amor que implora e que venera.
Escrava que sou da sua espera.


Kátia Drummond
The Travelling Poet

Arte: Antoine Denis Chaudet

domingo, 13 de setembro de 2009


MEU VERSO

Não sigo normas que sabotam a poesia.
Transgrido regras, leis gramaticais.
Rompo os grilhões que me amordaçam a língua.
E desaponto os que de mim esperam
preciosismos intelectuais.
Os que inventam versos, os que não criam.
Os que, acorrentados, não vadiam.
Impostores da frase e da expressão.
Os que maculam a alma do poeta.
Os que corrompem a língua da nação.

Meu verso vem da rua. Vem da praça.
Vem da criança esfomeada e nua.
Da adolescência triste, amortecida.
Meu verso vem da dor, vem da desgraça.
Do grito do mendigo na avenida.
Da mãe que chora a dor do filho morto.
Meu verso vem do povo, vem da vida.

Meu verso vem de pedro, de joão.
De lurdes, de joana, de maria.
Do bêbado cantando à luz do dia.
Do louco adormecido na calçada.
Vem do migrante, esperançoso e aflito.
Meu verso vem do coro dos sem-nada.
Daqueles que precisam do meu grito.

Meu verso vem dos negros, vem dos índios.
Do sertanejo, vem dos favelados.
Vem dos idosos, dos abandonados.
Dos que vagabundeiam, andarilhos.
Vem dos malditos, amaldiçoados.
Do maluco de rua, dos drogados.
Das putas, dos ladrões, dos maltrapilhos.

Não vem do intelecto. Vem da alma.
Não vem dos livros. Vem do coração.
Vem da evidência. Da intuição.
Do dia-a-dia. Da observação.
É simples. É comum. É verdadeiro.
Meu verso é a voz do povo brasileiro.
O BÊ-A-BÁ da língua popular.
Sem lei. Sem regras. Sem erudição.


Kátia Drummond
The Travelling Poet


Foto: Sheldan Collins.

terça-feira, 8 de setembro de 2009


SERRA LEOA

Não alcanço respirar profundamente.
Faltam-me espaços na infinitude.
Por isso, e mais, e antes e depois,
os meus poemas bradam no universo.
Será que algures, não aqui, em tudo,
alguém está a escutar meus brados?

Ó eco seco e grave de mim mesma,
por que tu voltas sempre? De onde vens?
Vá, siga em frente... Pule os muros.
Rompa a barreira surda, além do som.
Rasgue este breu atroz que nos separa.
E dilacere os corações malditos.

Rufam tambores dentro do meu peito.
É ela, Serra Leoa, a pedir-me asilo.
Refulgente, esplendorosa, estoica.
Vejo-me nela, em imensas fagulhas.
Vejo-me nas sombras dos seus natimortos,
nas lágrimas gélidas dos seus órfãos.
No leite a escorrer no peito da mãe aflita.

Não esperem por mim, prados verdosos!
Mudei de rumo. Rasguei o solstício.
Estou a atravessar as águas do atlântico.
Em outro porto, esperam-me os aflitos.
Freetowm, Koidu, Bo, Kenema, Makeni...
Meu coração, chuvoso em lágrimas,
por certo está a ressurgir do caos.
O berço itinerante dos poetas nus.

Serra Leoa sangra nos meus versos!
É tempo de partir, subir a serra.
Na garganta, o feroz rugido das leoas.
Nas mãos, a tenacidade dos guerreiros.
No coração, a força fervorosa dos ateus.
Abre-me as portas, pois, filha de África!
Juntas, copuladas, brotaremos sonhos.
E, em ti, teu povo colherá flores e frutos!


Kátia Drummond
The Travelling Poet


Imagem: Stuart Freedman.
Boy in the resettlement camp for amputees. Makeni, Sierra Leone. 2004.

sábado, 5 de setembro de 2009


EFÊMERA

Pensar-te em palavras, é muito pouco.
Mais ainda, em estrofes aceitar-te.
Em versos, abraçar-te, nem pensar!

Somente em utopias, como um louco,
em plena poesia posso amar-te.
Até que um outro surja em teu lugar.


Kátia Drummond

Imagem: Justin Hutchinson

sábado, 29 de agosto de 2009


PARIS EM MIM

Cantei Paris em plena Discophage.
Rue des Écoles sempre à minha espera.
Li Baudelaire, visitei poetas.
Vendi flores de papel, sonhos, quimeras.
Desvendei becos, desnudei ruelas.
Todas as suas portas me eram abertas.
Todas as suas ruas me eram belas!
Troquei de gestos, como fazem as damas.
Brilhei nas noites, mais que as atrizes.
Troquei de palcos, delirei na fama.
Adormeci nas luas das marquises.
Amanheci vagando nos jardins.
Perambulei nas praças, avenidas.
Vivi amores. Fiz homens felizes.
Vi lágrimas virarem cicatrizes.
Ouvi o badalar da Notre-Dame.
Roguei por Deus em todas as matrizes.
Nos bosques, caminhei nas folhas secas.
Colhi sereno, adormeci na grama.
Pousei nas gares, segui nos metrôs.
Fugi de mim pra não cair na lama.
Quantas e quantas madrugadas nuas.
Tantas e tantas noites mal dormidas.
Fantasmas passeando nos fortins.
E eu testemunhando outras vidas.

Fui pastora nos campos de Avignon.
Amiga de Zola e de Voltaire.
Lutei pela Tombée de la Bastille.
DaBelle Époque, fui la jeunne fille.
L’amante passionée de Baudelaire.
Andei Paris em muitos frios invernos.
Amei Paris em seus verões banais.
Colhi Paris em belas primaveras.
Sonhei Paris nas noites outonais.
Domei Paris como quem doma as feras.
Paris, pra mim, é uma folgazã.
Uma mulher da vida, bem amada.
Uma caixa onde escondo meus segredos.
Um pomar proibido, uma maçã.
Um útero onde ainda estou guardada.
Quero viver Paris todos os tempos.
Amá-la em meus delírios, com fartura.
Lavar minh’alma nas margens do Sena.
Embriagar-me plena de ternura.

Do que eu fui em Paris, resta-me o sonho.
E os versos dos poemas que componho.
E muito mais do que desejo. Ainda.
Eu quero é possuí-la, como poucos.
Eu quero engravidá-la, como os loucos.
Em meu sangue, meu suor, minhas entranhas.
Paris, pra mim, é a minha pátria estranha.
É a saudade da ventura finda.
É a lágrima distante que me banha.
Paris, em mim, é possuir-me ainda.


Kátia Drummond

Arte: Walter Bibikow

sexta-feira, 21 de agosto de 2009


ALMAGAMADAS ALMAS NUAS

Não nos deixemos sós, os dois, as duas.
Nossas amalgamadas almas nuas,
entrelaçaram nosso ir e vir.
Sem nós, não saberíamos seguir.
Qual alma gêmea, qual, encontraríamos
tão igualzinha a mim, tão igualzinha a ti?

Se juntos habitamos o mesmo templo,
se percorremos sempre a mesma estrada,
Se adormecemos sob os mesmos sonhos
e tatuamos os mesmos lençóis.
Se juntos somos tudo, somos nada
e se ardemos sob tantos sóis.
Se as nossas vidas vivem entrelaçadas,
se já nos entregamos um ao outro,
se não sabemos desatar os nós?

O que fazer então os dois sozinhos,
perdidos animais, fora do ninho,
qual de nós dois encontraria a porta,
se há tanto tempo essa cumplicidade
nos transformou em natureza morta?


Kátia Drummond.

Ilustração: Paolo Farinati, 1890. The Bettmann Archive.

domingo, 16 de agosto de 2009


EXÉRCITO DE ANJOS

Pequenos, barrigudinhos
Olhares tristes, mansinhos
Sorrisos amarelados
Perambulam nas esquinas
Frágeis como passarinhos
Os meninos e as meninas
Filhos das filhas das ruas
Donos dos bancos das praças
Pés-de-vento, pés descalços
Desamados, destemidos.
Perseguem-lhes os cães de raça.

Vira-latas das esquinas
Frágeis aves de rapina
Armados de pedra e pau
Os meninos e as meninas
Pastores das alvoradas
Atravessam madrugadas
Sempre em estado de graça
Adormecem ao relento
Parecem donos do tempo.
Perseguem-lhes os cães de caça.

Borboletas sob o sol
Vaga-lumes sob a lua
Sem presente e sem porvir
Quebram cercas, pulam muros
Sem saber pra onde ir
Os meninos e as meninas
Entre ódios e branduras
Guerrilheiros de almas puras
Maltrapilhos, quase nus
Têm um coração que clama
Uma alma que reclama
São todos anjos da terra.
Essas crianças de luz!

Katia Drummond
Obra: Exército de Anjos



Fotógrafo: Gideon Mendel


RASTROS

[A Charles Baudelaire. "Em memória".]

Eu sou devota das palavras sãs.
Tenho a missão de transformar o mundo.
De desmistificar as causas vãs.
De dialetizar as calmarias.
De destoar dos dogmas, das leis.
De discordar e de romper de vez.
Carrego um lado torto, outro corcundo.
Depende das pedreiras do caminho.
Das foices, dos martelos, das enxadas.
De tudo o que discordo e desalinho.

Num corpo embaraçado em finas teias,
Trago uma alma que pensa e delira.
Força inquieta, imprevista, insana.
Mas delicada como o som da lira.
Um coração ardente, sempre em chama.
O sangue que percorre as minhas veias,
Aos meus sentidos, vai virando cobras
Que serpenteiam, tortuosamente,
Tal qual um rio fecundo em solo quente.
Como um pincel traçando novas obras.

As minhas mãos singelas, palmo a palmo,
Escavam firmemente a terra bruta.
Enquanto os meus pés, a cada passo,
Cravam no barro o sangue dessa luta.
Eu tenho por tarefa, ser tenaz.
Eu tenho por medida, ser ligeira.
Meu tempo urge. Não olho pra trás.
Se a vida é uma aventura passageira,
Por que chorar, se o passado não volta,
E se a morte é a flecha mais certeira?

O meu espelho nunca me reflete.
Mostra as doçuras e as brutalidades
De um mundo atroz, traçado a canivete.
Mostra as dores dos filhos de Zimbabwe,
Suazilândia, Lesoto, Botswana.
O mundo que maltrata e que engana.
Que cria a infância e que lhes rouba a alma.
Que trai e corta fundo, com a navalha,
A mãe que, em vão, o filho morto acalma.
Ao tempo em que lhe serve de mortalha.

Tenho uma cara que pensa e constrói.
E outra que destrói, face aos perigos.
Se brinco, sou a taça do herói.
Se penso, sou a arma dos bandidos.
Sou as meninas, as putas das ruas.
Os corações humanos travestidos.
Os pivetes com armas de brinquedo.
Os favelados sem o samba-enredo.
Os mortos-vivos, trastes desnutridos.
Os cadáveres das guerras invisíveis.
Os budas tibetanos destruídos.

Sou o "Teatrofantasma" de Ariel.
De Macalé, a voz rouca e fiel.
De Mautner, o verso destroçado.
De Cazuza, o amor estilhaçado.
De Brecht eu sou o derradeiro ato.
O último suspiro de Torquato.
Do Raul Seixas sou o desatino.
Sou nau perdida. Nave sem destino.
O lancinante grito não contido.
O diabólico ecoar do sino.
Eu nada quero. E tudo tenho tido.

De noite, exausta, eu deito e descanso.
Adormecida, sonho que estou viva.
Na madrugada, eu acordo e avanço.
Acorrentada. Escrava. Ave cativa.
De dia, ao despertar, ouso e alcanço.
Desato os nós, desembaraço a teia.
A liberdade abre as suas asas!
O universo inteiro se encandeia.
Bandeiras rasgam-se nos velhos mastros.
E enquanto a vida tece uma outra teia,
Eu sigo em frente deixando meus rastros.


Kátia Drummond
Sintra, Portugal.


Title: Portrait of Charles Baudelaire
Artist: Etienne Carjat
Date: 1861-1862

quarta-feira, 5 de agosto de 2009


DESPEDIDA

(Ao amigo Carlos Karr. Em memória.)

Não há adeus em nossa despedida.
Nem piedade. Nem desolação.
Pois os amigos nunca se separam.
Apenas, vão….

E deixam no seu rastro a alegria.
Sem saudade. Sem consumação.
Pois os amigos nunca se acabam.
Apenas, são.


Kátia Drummond
The Travelling Poet


Imagem: Patrick Norman

quinta-feira, 30 de julho de 2009


TERRA MÃE

Ai quem me dera ver-te verde e virgem,
oásis sobrevindo à fantasia.
Inalar-te o odor vindo das matas,
sugar-te o mel que ocultas nas entranhas.
Saborear o sumo adocicado dos teus frutos,
tocar de leve a tua tenra terra
e nela me acolher até dormir.
Sem sonhar, ver-te tal qual tu és,
terna e úmida mulher.
Sem pensar, ter-te absoluta e generosa mãe,
fértil concepção de muitos deuses.
E eu, noviça, apenas em ti
principiar de novo a vida.
O matiz da tua paisagem me delicia.
Aí, começamos a única
e derradeira viagem de luz.
Eu, tua aldeã, a invadir teu corpo,
eloquente digo que te amo.
Docemente afago-te com meus pés.
Tu me concedes a essência das essências.
Em mim jorras sublime o teu perfume,
enquanto chegam-me, um a um,
sacis, iaras, curupiras, caiporas.
Elfos, duendes, gnomos,
silfos, ondinas e salamandras.
As pedras que te cercam os rios, sorriem...

Encantada, consagro-te a minha vida pagã.
Sem blasfêmia, beijo-te o chão.
E tu sorris toda só pra mim.
Dos jasmins, caem delícias sobre meus cabelos.
Os bichos-da-seda acobertam-me o ventre.
A brisa fogosa desvenda-me o sexo.
Tu me tens. Delícia das delícias!...
Se verdejante exorcizas-me,
enquanto em mim perpetuas a espécie,
plácida aquieto-me, recebo-te
e eternizo inerte o teu amor.
De mim brotam o céu e a terra.
A água, o fogo, o ar.
Surgem vales e montanhas.
Lagos e rios. Flores e frutos.
E, quando de todos os instáveis
elementos nascem os homens,
pela primeira vez tu choras, maculada e triste,
ao pressentir, enfim, a tua própria morte.


Kátia Drummond
The travelling poet

segunda-feira, 27 de julho de 2009


A CIGARRA

Caem folhas e oitis
Rasgando o silêncio atroz
A outonal cigarra atriz
A engendrar a própria morte
Parece cantar feliz.


Katia Drummond
Num março outonal. Salvador, Bahia.


Foto: Shutter Hand

sexta-feira, 24 de julho de 2009



PLENILUNIO

Num dia, assim, chuvarento,
voei nas asas do vento,
em busca da luz do sol.

A lua cruzou o meu caminho.


Kátia Drummond
Em inverno brasileiro. Salvador, Bahia.

Foto: Sávio Drummond


SÊMEN

Não é o sol, nem a lua.
Nem a chama mais brilhante.
Somente a minha poesia
faz-me um ser irradiante.
E, por ser iridescente,
brilhar na alma da gente.
Como quem afaga o tempo,
indeterminadamente.

E a cada palavra incerta,
a cada estrofe mordaz,
decodificar o verso
em enigmas transversais.
E dele, extrair o sumo,
o sêmen vivo e fecundo,
de onde brota a poesia
que eu espalho pelo mundo.


Kátia Drummond
Em inverno brasileiro. Salvador-Bahia.


Imagem: Dave Michaels

terça-feira, 21 de julho de 2009



MEU POETA

Não era brasileiro, o meu poeta.
Não tinha tempo nem medida certa.
Sua alma rondava o mundo inteiro.
Qual sombra de oitizeiro, em meu jardim,
pairava invisível sobre mim.
Vinha de longe, atravessava os mares
e desbravava o ronco do trovão.
Montado num unicórnio, qual gnomo,
meu príncipe encantado era assim:
as vezes menestrel, às vezes mudo,
fantástico, irreal e absurdo,
cheirava à folha verde de alecrim.
Sublime, o meu poeta me encantava!
Ave de arribação, eu lhe buscava
e em meu casulo lhe guardava enfim.
Um dia, finalmente, um belo dia,
eu despertei da minha fantasia
e vi o meu poeta em minha frente,
de carne e osso, igualzinho a mim.
Tão inocentemente tão bonito!
Tão permanentemente tão presente!
E ao lhe sentir fluir tanta energia,
lhe transformei, imediatamente,
de meu poeta em minha poesia.

Katia Drummond
Em inverno brasileiro. Bahia, Bahia.

Ilustração: Joseph Corsentino

segunda-feira, 20 de julho de 2009


CARTA DE ALFORRIA

Eu não queria carregar os meus poemas
com as minhas próprias mãos.
E levá-los, como o faço,
tímida e constrangida,
ao encontro dos homens.

Queria que os meus poemas voassem...
Leves, soltos, libertos por aí afora.
E, com suas próprias asas, atravessassem
o tempo, ganhassem o mundo.

Poemas atemporais que invadissem corações.

Por que será que os meus poemas,
cafuzos, mamelucos, mulatos, caboclos,
dependem tanto assim de mim?

Será que esses meus poemas
ainda vivem nas senzalas?

Tristes poemas cativos!
Nem percebem que têm o destino dos pássaros.


Kátia Drummond
Salvador, Bahia. Brasil.


Arte: Hochachka


MAINHA

Quando eu era criança, ainda me lembro,
menina da rua, fugaz andorinha,
eu via os homens entrando e saindo.
Malditos ladrões... Perversos bandidos,
querendo prazeres. Todos mal vividos...
Em busca do corpo da minha mainha.
Na mesma alcova, bem onde eu dormia,
sem cama e coberta, deitada no chão.
No colo onde eu mesma jamais deitaria.
Na casa sombria que não era minha.

Alguns davam doces. E outros, brinquedos.
Pequenas bonecas vestidas de trapos.
E eu, curiosa, pensava comigo:
por que tantos homens entrando e saindo?
O que é que eles fazem? Parecem farrapos!
Às vezes ficava quietinha, espiando...
Nas pontas dos pés. Infeliz bailarina!
Sem mesmo saber que ali, do outro lado,
mainha traçava pra mim minha sina.

Aquela mulher, já exausta da lida,
chorava baixinho pra ninguém ouvir.
E eu já crescida, menina perdida,
fui vendo em meu corpo o preço da vida.
Odiei os homens! Desejei partir...
Pensei em tirar a mainha da luta.
Mas... ela me olhava e com raiva dizia,
gritando aos brados, no maior desdém:
"Se manda daqui! Vai, menina vadia.
Que filha de puta é puta também."


Kátia Drummond

Arte: Vincenzo Balocchi


A CASA AMANHECE

Ao longe, mesmo de perto,
um ruído matinal.
Não vem das aves. Vem dela.
Passo firme, angelical.

O andar rumo à cozinha.

Corre a água na torneira.
Zoam louças e panelas.
Um bulício delicado...
É ela abrindo as janelas.

Pensa que está sozinha!

Determinada e ativa,
no seu jeito costumeiro,
derruba um talher no chão.
De repente, um forte cheiro...

O café se avizinha.

Cantarolando, vem ela.
Aproxima-se da cama.
Com voz doce, cuidadosa,
suavemente me chama.

Chega mais e acarinha.

Segue o dia. Segue o tempo.
A casa fica deserta!
Parece que, de repente,
nenhuma vida desperta.

Como faz falta a mainha!



Kátia Drummond
Salvador, Bahia. Brasil.

Foto: Bruno Ehrs

terça-feira, 7 de julho de 2009


REQUIEM PARA UM AMOR

Desde o momento em que eu lhe vi morrendo,
apercebi-me: estava lhe perdendo.
Olhei pro tempo, andei léguas pra trás.
A vida veio inteira em minha mente.
Um filme surrealista, tocha ardente,
como um vulcão, uma fera voraz.
Desejei ser a autora do destino.
Vi-me menina, como o Deus Menino,
nos braços da Senhora Mãe donzela.
Ou era uma criança na janela,
olhando os “mascarados” na avenida,
todos querendo se esconder da vida.

A vida, então, pra mim era um brinquedo,
eu não entendia porque tanto medo.
O mesmo medo que me assombra agora,
ao ver você saindo do seu corpo.
Espírito de luz num corpo morto,
querer ficar, mas tendo que ir embora.
A dor maior era lhe ver calada,
sangrando a vida em plena madrugada.
Vi-me sozinha. Não entendi mais nada.
E a morte veio como erva daninha,
matando tudo. E eu ali, parada.

Que gosto amargo, que cansaço imenso.
Você virando um anjo em minha frente.
Deixando de ser mãe e de ser gente,
agonizando no extertor final.
Que sensação sinistra, ver seu funeral!
Loucura, ver a terra lhe cobrindo,
e eu lhe pedindo pra não ir embora.
Rezando, mesmo sem saber rezar,
buscando alguma força pra me dar.
Vi Deus virar Diabo aquela hora!

A casa parecia um templo antigo,
mal assombrado, sem qualquer amigo.
Uma cena delirante, teatral.
E eu fui me dando conta, de repente,
que eu já não era eu, eu era alguém.
Sem pai, sem mãe, um animal sem vida.
Um cão lambendo a própria ferida.
Sentei no chão, chorei amargamente.
E desejei ser terra e ser semente.
Fazer você voltar, sobrevivente.

Você saiu de mim como uma ladra.
Silenciosa, cabisbaixa, errante.
E me deixou sozinha e desarmada,
como uma marginal principiante.
Você roubou meus últimos brinquedos.
Você levou todos os meus segredos.
O meu maiô de elástico vermelho.
O meu batom, o meu primeiro espelho.
A bicicleta, o álbum de retratos.
Meus quinze anos, meus sapatos altos.
Meus carnavais e minhas fantasias.
A minha serpentina, o meu confete.
O meu Colégio Santa Bernadete,
minhas colegas, minhas alegrias.
Levou minhas cigarras, meus oitis,
a minha Madragoa, os bem-te-vis,
levou minha Avenida Beira-Mar.
Levou Jauá, levou meus veraneios,
o barco de painho e meus passeios.
Levou meu São João, meu milho verde.
Meus doces sobre a mesa, meus natais.
O meu acordeon, o meu piano,
os meus concertos e os meus festivais.
Me diga mãe, o que é que eu faço agora,
se sem você eu já nem sonho mais?

Você me levou tudo mãe, até minh’alma!
Em que ternura eu vou buscar a calma?
Em que calor eu vou guardar meu frio,
se até meu coração ficou vazio?
Em qual abraço eu vou guardar meus medos,
se hoje estou em todos os degredos,
se fui deixada ao sabor do vento,
amargurando a cara do meu tempo,
mortificando a dor todo o momento?

Responda, mãe, de onde está agora.
Dê-me o sinal que eu lhe pedi outrora.
Se não existe nada além da morte,
entrego a minha vida à própria sorte.
Responda mãe, o que eu pedi um dia,
em nome da esperança que eu perdi,
em nome do poeta e da poesia.
Por cada ideal, cada utopia,
faça os meus versos ter algum sentido,
faça vibrar o eco universal.
Atenda mãe, meu último pedido.
Responda mãe, num gesto maternal.
Valeu ou não, um dia ter nascido?
Valeu ou não, um dia ter vivido?
A morte é o começo, o meio ou o final?


Kátia Drummond
Em outono brasileiro. Salvador, Bahia.

Foto: Claudio Paulo

quinta-feira, 26 de março de 2009

REBENTO
Os papais Henrik e Brisa avisam que a fadinha Hannah ganhou um irmãozinho. Nasceu Erik, o novo "rei dos vikings".
Em 22.03.2009. Lund, Sweden.

REBENTO

Ao netinho Erik, com amor de vó.

As linhas, ascendentes, são caminhos
da vida bem traçada, a cada célula.
Teia do amor tecido fio-a-fio,
no corpo morno onde, em lugar do rio,
numa lagoa pousa uma libélula.

No oculto onde o universo fez seu ninho,
a ânima, sangrando em vaso bento,
transforma-se de gruta em bela foz.
E a dadivosa mãe, terna e veloz,
do casulo rasga a seda. Eis o rebento!


Kátia Drummond

Foto: Brisa Drummond (Sweden)

domingo, 23 de março de 2008


PRIMAVERA OUTONAL

Viver é mais que saber
que nada é definitivo
quando o corpo está vivo,
quando bate o coração.
O resto é futuro incerto.
Felicidade de giz
desenhada no deserto.

Viver é mais que querer
estar aqui ou ali.
É simplesmente viver.
Sem procurar entender
por que o março outonal
é a primavera a florir
nos marços de Portugal.


Kátia Drummond
Em dia de aniversário outonal.

Foto: Katia Drummond. Lisboa, Portugal.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008


ADEUS, LISBOA

É tempo de deixar-te a sós Lisboa.
De abraçar-te, num adeus final.
Como um pássaro cinzento, anjo à-toa,
que abre as asas quebradas e voa...
até cair no volumoso Tejo,
em doloroso ato terminal.

Bem sabes tu, Lisboa, que na vida
ave perdida não escolhe a sorte.
Apenas abre as asas ao tempo e voa...
Além fronteira, segue sem destino.
E, de tanto voar a vida inteira,
acaba por traçar a própria morte.

Ainda hei de voltar-te. Não sei quando.
E, num extremo gesto de alma pura,
acariciar-te, desvendar-te inteira.
Cruzar-te, uma a uma, as velhas ruas.
E como fazem as mulheres nuas,
guardar-te no meu corpo com ternura.

Ah... Lisboa... Lisboa... se soubesses
o quanto te amei, e ainda te amo,
tu não deixavas que me acorrentassem
e me quebrassem as delicadas asas.
E, num só tempo, como fazem as damas,
proclamava-me o amor que hora reclamo.

Depois de mim, eu sei, outras virão.
Todas de ti torna-se-ão amantes.
Algumas beijarão os teus cabelos.
As outras deitarão sobre os teus ombros.
Mas nenhuma delas, em teus escombros,
beijar-te-á os seios agonizantes.

Entre o nó na garganta e a dor no peito,
despeço-me de ti, bela cidade!
Deixo-te o brado vivo do poeta,
o grito do "quilombo" em liberdade.
Mas... levo a dor dos fados brasileiros,
e um coração morrendo de saudade.

Kátia Drummond
Em inverno português. Sintra, 2008.

domingo, 25 de novembro de 2007


SENDA

Seguir o melhor caminho...
por pior que seja a estrada.

Nada é antes, nem depois.
É só durante. Mais nada.


Kátia Drummond

Arte: Kristy-Anne Glubish


APENAS

Não perguntem quem sou.
Leiam meus versos.

Antes que o sol apague.


Katia Drummond

Foto: ACraig Tuttle


INEXPLICAVELMENTE

Entre o nó na garganta e a dor no peito,
lá vou eu, titubeante passageira.

Nau sem destino, pátria sem fronteira.

Inexplicavelmente, brasileira.


Kátia Drummond

Fotógrafo não identificado.


POEMAR

Se eu ainda poetizo,
é pra alimentar o sonho.

E não perder o juízo.


Katia Drummond

Foto: Natan Souza.


O PÁSSARO

Eu, pássaro libertário,
voando traço rotas.

O vento apaga os rastros.


Kátia Drummond

Foto: Karen Su

domingo, 11 de novembro de 2007


POETA NÃO MORRE. DESENCANTA!

Brasa que arde incessantemente,
e que, mesmo nas chuvas, não apaga,
por ser pagã, sou muitos firmamentos.
Por ser ateia, mais que encantada!
Por se poeta, todos os rebentos.

Assim havendo, quando nos encantos
soam, em murmúrios, as torrentes,
e ecoam em suas tumbas os fantasmas,
tambores rufam dentro do meu peito.
E nos sangues e linfas secam os plasmas.

Não a morrer. Mas... a desencantar.
[Encantados não morrem. Desencantam!]
Desintegrar-me, transmutar-me em verso.
Evanescer... qual nuvem passageira.
E explodir estelar no Universo!


Kátia Drummond
Em outono português. Sintra, 2007.

Imagem: Lawrence Manning.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007


PÁTRIA

Declaro-te meu amor, pátria minha!

Faço tuas as minhas utopias.
Entrego-te os meus sonhos
de ver-te brotar em viçosos pomares.
Serras e vales verdejantes,
onde todos os caminhantes,
livres da fantasmagórica fome,
com risos descontrolados,
deliciarão seus puros paladares.

Ainda carrego-te no meu corpo curvo.
Meu coração, cheio de recordações,
revolve meus tempos de cigarra,
quando eras meus frondosos oitizeiros.

Ao longe, lambo-te delícias e doçuras.
Mel a escorrer pelo teu corpo-mapa.

Navego-te horizontes sem fim,
em busca de desvendar-te a felicidade.

Rasgo-te os limites. Cruzo-te as fronteiras.
Cheia de desejos, crivo-te de beijos.

Declaro-te meu amor, pátria minha!

Porque ainda estou viva e ainda choro.
Porque ainda acredito em ti.


Katia Drummond
Em verão português. Sintra, 2007.


FOTO: Stephanie Maze.

sábado, 25 de agosto de 2007



ESPANTALHO

A saudade engoliu-me!

Vaga e obscura saudade abissal...
Meu coração, em neve, congelou-se.
Tudo é nada no passar da vida.

Quando eu nasci, era um anjo.
Hoje, um delicado demônio de luz.

Ah... meu Deus... como és cruel!
Primeiro, iludes. Depois, abandonas!

Meus jardins viraram prédios.
Meu piano, cinzas de carvão.
Quero de volta as velhas partituras.
Foi nelas que enterrei meus sonhos.

Chopin, velho amigo de infância,
traz-me de volta os nossos Noturnos!
Nas suaves asas dos teus acordes,
devolve-me a alma lírica que perdi.
Traz-me, em Sonatas, a doce mãe.
Minha única, fiel e fervorosa platéia.

Ah... gélida, feroz e incontrolável saudade...
Invisível e voraz óxido corrosivo.
Silenciosa e devastadora ferrugem.
Afiado e incomplacente fio de navalha.

A saudade engoliu-me!

Agora, vestida de espantalho,
sofregamente tento assombrar o tempo.

O inexorável tempo que me resta!


Kátia Drummond
Em verão português. Sintra, 2007



Foto: James Nelson
Ah... meus belos e apaixonantes corvos suecos!

quarta-feira, 13 de junho de 2007


ANJO À-TOA

Não busque no meu corpo a carne, a chama.
Nem veja no meu rosto uma consagração qualquer.
Eu sei que sou um anjo à-toa nesse mundo.
Um tiro certo, um poço fundo,
um precipício aberto, uma mulher.
O que é que eu faço dessa sensação estranha,
que me persegue e me apanha,
e me vira pelo avesso,
que não tem fim nem começo
e me faz o que bem quer?
O que é que eu faço dessa sensação perdida,
desvairada, enlouquecida,
displicente, amargurada,
se o meu sorriso anda tão comprometido
e se a gente passa e pensa,
sem recompensa, sem nada?
Eu quero ser seu anjo,
à-toa e vagabundo,
seu mistério o mais profundo
e você vem quando quiser.
Se você quer morrer de amor,
morrer de vício,
eu quero ser seu precipício,
seu amor, sua mulher.

• Poema: Kátia Drummond
• Música: Tamir Drummond
• Arranjo, voz e violão: Sávio Drummond

• Foto: Damir Frkovic

Link:
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quinta-feira, 7 de junho de 2007



LISBOA

[Para Fernando Pessoa, [e]terno Mestre. Em memória.]

Aqui, por onde sangra o Tejo,
a melancolia é mesmo tanta,
e a nostalgia emerge tão concreta,
que nem o rebuliço ruidoso dos jovens,
nem o ânimo incontido dos artistas,
sequer a lucidez profana dos poetas,
alcançam entender-te, transformar-te.

Aqui, por onde floram as primaveras
e brotam alegóricos cravos rubros,
as pessoas revelam-se tão incrédulas
que parecem viver a esperar fantasmas.
Taciturnas almas penadas…
Perpetuação dos tempos findos!

Prantos de pedras tragados pelo tempo.
Hoje... esculturas esculpidas no cais.

Aqui, por onde passam esquifes,
e as esperanças desvanecem,
eu, apenas eu, abraso-te, animo-te.
Posto que trago em mim
o espírito libertário das gaivotas.
E o coração a desatar-te amarras
e a purgar-te o inebriante banzo.

Poemas viscerais, guardados em garrafas,
submersos nas lágrimas salgadas do teu mar.


Kátia Drummond
Em primavera portuguesa. Sintra, 2007.


FOTO: Alfama, Lisboa. Por Wolfgang Kaehler.

quinta-feira, 3 de maio de 2007


DIVINO AMOR

[Para todas as as doces mainhas.]

Quer seja do orgasmo a sintonia
ou da fecundação a alegria,
não sei se é maior a dor do parto
ou a dor de entregar ao mundo a cria.
E é tanto, é tão profundo o sofrimento,
que o corpo-mãe vem a sentir por dentro,
que a aventurança da maternidade,
face a incerteza da vida lá fora,
à compaixão de mãe vira um tormento.
Ao coração de mãe vira maldade.

Ó Deus! Quisera nunca ter engravidado.
Nem mesmo nunca um dia ter parido.
Pois ter um filho e seguir rumo à morte,
deixando-o à deriva, à própria sorte,
é bem pior que um dia ter nascido.
Se em nome deste meu amor divino
eu bem pudesse reverter o tempo,
virar a roda-viva do destino,
e transformar, enfim, o saia em entre,
eu recolhia todos os meus filhos.
E, um a um, guardava no meu ventre.


Kátia Drummond
Sintra, Portugal.


Foto: Jon Jones

sexta-feira, 20 de abril de 2007

ANUNCIAÇÃO

Henrik e Brisa avisam que a Fadinha Ana Terra ganhou uma priminha.
Nasceu a Fadinha Hannah.
20.04.2007. Lund, Sweden.

ANUNCIAÇÃO

[Para a fadinha Hannah, o amor da vó-peregrina.]

Bem-vinda, criança, em suave alegria,
ao mundo encantado dos seres do bem!
Terra dos amores, pátria da ternura,
onde a vida reina da forma mais pura.
Bem onde a tristeza não fere ninguém.

Para ti eu colhi o sumo dos sumos.
A seiva mais doce dos férteis pomares.
As pétalas róseas de raros jasmins.
A essência suave dos flóreos jardins.
Os licores puros dos verdes altares.

As fadas dos bosques saíram das lendas,
e entoam as modinhas de algum colibri.
As manhãs teceram fulgores constantes.
As noites embalam teus sonhos infantes,
e os contos-de-fadas esperam por ti.

Enquanto tu chegas, eu bem de mansinho
acendo a esperança que ilumina o ser.
E peço aos anjinhos das minhas lembranças
que acendam o céu. E avisem às crianças
que um novo anjinho acabou de nascer!


Kátia Drummond
Em primavera portuguesa. Sintra, 2007.

Foto: Papai Henrik
A Fadinha com 12 horas de nascida.

domingo, 15 de abril de 2007



QUANTO MAIS ENVELHEÇO, MAIS VERSOS TEÇO.

Desde a memória familiar de Castro Alves, cujo retrato desbotava na parede da casa da minha vó, cresci e sempre vivi num mundo especial, de pessoas sensíveis, filósofos, escritores. Nossa casa era o templo dos artistas. Um estado de encantamento incomum acercava-me cotidianamente. A luz roxa da vela boiando no óleo, e a iluminar desde a imagem do "Coração de Jesus" até meu próprio coração. Meu ensimesmado vô tocando um desfinado bandolim. Meus tios escritores, ora vibrantes, ora silenciosos, dedilhando palavras em suas pesadas e ruidosas máquinas datilográficas (elas, as máquinas, exerciam um estranho poder sobre mim!). Minha mãe, solenemente, executando no piano a "Marcha Fúnebre" de Beethoven. Meu pai, sorriso nos olhos, tocando pandeiro e declamando:

– Seu moço, depois dessas terras, onde é que vai dar?
– Adispois dessas terra Doutô, adispois dessas terra é sempre Brasi.
– E depois do Brasil, seu moço? Depois do Brasil, tem o quê?
– Adispois do Brasi, seu Doutô? Adispois do Brasi… num tem nada!

E era o galo a anunciar o sol. O sino da igreja a badalar a lua. A borboleta, o caracol, a lesminha, a formiga, o besouro, a mosca, a abelhinha, a viuvinha, o gafanhoto. Como era lindo o meu jardim! A lépida lagartixa a caçar mosquitinhos, os passarinhos gorjeando nos luminosos girassóis, os estranhos morceguinhos [vi]vendo o mundo ao avesso, o "caguinho" escondidinho atrás do piano, o elegante cavalo-marinho, a esvoaçante medusa bailarina. Um homenzinho de boné vermelho morava na parede do meu quarto e todas as noites sorria para mim. Uma fadinha dourada tecia os meus sonhos. E a vó materna, completamente paralítica, dava de contar estórias encantadas:

"Capineiro do meu pai
Não me cortes o cabelo
Que a madrasta me enterrou
Pelo figo da figueira
Que o passarinho roubou."

E eu, com meus cabelos de milho e meu corpo de algodão, começava a ouvi-las (e eram muitas) em sorrisos e, ao final, sempre acabava por disfarçar as lágrimas. Criança também sabe disfarçar!

Permanentemente renascia entre os livros escolares, os contos de fadas e o piano. Filha de pianista clássica, iniciei no instrumento desde cedo. De tanto ouvir minha mãe tocar, apaixonei-me por Chopin, Mozart, Scarlat, Vivaldi e Bach. Passei a sonhá-los por noites a fio. E vim a estudá-los. E acabei por interpretá-los. Virei concertista. Virei eles. Minha vida voou além de mim.

Mas... curiosamente, nunca perdia de vista um estranho movimento que vivificava nossa casa. Que atraía entusiasmados “camaradas”, vindos de longe. Um mundo "mágico", habitado por pessoas idosas, pessoas maduras e alguns jovens, todos eles “revolucionários”. Belas pessoas comunistas, a quem observava embevecida, e a quem aprendi docemente a amar. Idealistas, falavam-me de igualdade, liberdade e direitos humanos, como se eu fosse gente grande. Eles incendiaram meu pequeno coração. Alumiaram minha infância.

Desde a tenra idade, ouvia meu pai a dizer que gente nasceu para ser feliz. Que “a religião é o ópio do povo". Que existia um lugar onde ninguém passava fome. Apaixonei-me por esse lugar fantástico, embora nem conhecesse a fome. Foi amor à primeira vista, confesso. Construí ali o meu jardim do Éden. E nesse meu mundo imaginário, meu paraíso terreal, crianças cantavam e brincavam de roda. Os pais e as mães, os vôs e as vós, eram todos alegres. Ali, no meu jardim fantástico, a vida sempre sorria feliz.

Mas… um dia (triste dia!), com arma na mão, a polícia "heroicamente" invadiu nossa casa. “Casa de comunistas!”, “Casa de gente que mata e que devora criancinhas!”. E aquela polícia levou meu pai. Levou meus tios. Levou meus amigos. Levou minhas prendas. Ficamos minha mãe, minha irmã e eu. A polícia desarrumou salas e quartos, derrubou meus brinquedos, quebrou minhas bonecas, destruiu meu piano, levou o pandeiro de meu pai. Foi assim que vi e que senti, pela primeira vez, o gosto salgado da vida a escorrer, em lágrimas pungentes, na pálida face da minha mãe. Uma bala atravessou meu sonho! Amarguei a minha primeira dor. Pedi asilo ao meu coração. Daí em diante, em meio a lapsos de felicidade, foi uma dor atrás da outra. Eu vi que os comunistas da minha casa tinham razão. A minha poesia sangrou em mim. E virou comunista também!

Veio o ruído do tempo. O murmúrio rompeu o silêncio. Um pássaro cinzento pousou no meu ombro. Pedi asilo ao mundo. Enlaçadas no mesmo corpo, a poesia e eu, criamos asas. Quanta lindeza tamanha! Quanta tristeza medonha! Agora, entre o imaginário e a realidade concreta, moto-contínuo, sou eu a dizer aos meus filhos e às minhas netinhas (eles também são tudo arte, tudo artista!) que esse mundo ainda vai ser bonito, justo, humano. Sem discriminações, sem miséria e sem fome. Sem violência e sem dor. E que todas as pessoas serão felizes. Como nos contos da carochinha, como nas infâncias perdidas, como o que temos de melhor em nossos corações.

E, neste mundo em movimento, enquanto houver essa tristeza pungente da mãe desleitada e esquálida, enquanto a lágrima do pai aflito cair sobre o rosto esquelético do filho morto pela fome, enquanto o sorriso pálido e suplicante brilhar nos olhos esperançosos das crianças, enquanto a desesperança escorrer nos corpos desiludidos dos idosos, haverá de borbulhar em mim a poesia. A poesia que orvalha a natureza. A poesia que enternece os corações. A poesia que beija e abraça. A poesia que sonha e realiza. A poesia que brada nos porões dos navios negreiros. A poesia que pensa e transforma. A poesia que irrompe e pula cercas. A poesia que sangra e segue a marcha. Porque, venturosamente, a vida me acontece. Porque é preciso.


Kátia Drummond
Sintra, Portugal.


Imagem: Lili K.

sábado, 7 de abril de 2007



EU POESIA

Se eu ainda poetizo,
é pra alimentar o sonho.

E não perder o juízo.


Katia Drummond
Em verão português. Sintra, 2006.



Ilustração: Gerrit Greve.

segunda-feira, 26 de março de 2007



CARTA DE ANIVERSÁRIO.

O sol brilha por aqui em mais um dia de aniversário.
Antes, diria, dia festeiro... dia festivo. Antes!
Mas... a lonjura insiste em nos separar.
Entre nós, paira a geografia. A física. A lógica.
E ficamos matando a voraz saudade,
como quem lembra do do primeiro brinquedo.
Restam-nos os furtivos reencontros. Quando, onde?
Alegrias e recordações no cais do porto de chegada e de partida.
Somos marinheiros sós. Sóis brilhando nos trigais.
Doirados girassóis brotando a cada outonal 26 de março.
Num espelho sobrenatural brindemo-nos.
A festa é nossa. Apesar de tantas saudades mal compensadas!
Nós éramos inocentes quando nascemos.
E ainda o somos, pelos nossos amares constantes.
Vamos celebrar?
Para mim, que versos faço, basta-me sonhar...
bem à sombra do arvoredo, como um pássaro cinzento caído.
Perdida no tempo, mas plena de vida e de voos.

"Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite.
Que a liberdade seja a nossa própria substância."
{Simone de Beauvoir}.

Até mais, que vou as pressas costurar com pétalas de flores
a nossa delicada e luminosa felicidade.


Katia Drummond.

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PRIMAVERA OUTONAL

Viver é mais que saber
que nada é definitivo
quando o corpo está vivo,
quando bate o coração.
O resto é futuro incerto.
Felicidade de giz
desenhada no deserto.

Viver é mais que querer
estar aqui ou ali.
É simplesmente viver.
Sem procurar entender
por que o março outonal
é a primavera a florir
nos marços de Portugal.


Kátia Drummond
Em primavera portuguesa. Sintra, 2007.


FOTO – ALBUM DE FAMÍLIA: EU E A MANA SÔNIA.

domingo, 11 de março de 2007


ENTRE ALFAZEMAS E ALECRINS

[Para Sávio Drummond. Com amor de “mãe-peregina”.

Para ti, dessas águas lusitanas,
segue pelo mar uma garrafa
cheia de luzes encantadas,
que roubei dos pirilampos,
para que ilumines as tuas noites.
E mando preciosos raios de sol,
para que fulgures os teus dias.
Também vão cantos de rouxinóis,
para encheres de gorjeios os teus tempos.

E, na lonjura, ao lembrares de mim,
sintas que a poesia continua viva,
como o sol ardendo em flamas.
Vasta com um rio. Infinita como o mar.

Como minhas asas já não voam,
piso suavemente na terra alheia,
para não ferir os brotos de alecrins,
nem os campos lilases de alfazemas.

Ainda, para não esqueceres de mim,
fiz das ramas do trigal um novo ninho.
E de algas anda farta a nossa mesa.

Anda, vem ligeiro ouvir um fado,
que as guitarras não param de tocar,
que as velas já estão acesas,
que os incensos perfumam toda a casa.

Sobe nas asas de um falco-peregrinus,
aproveite o vento que por aí passa,
e voe... voe nos céus, vem além-mar.

Enquanto a terra ainda gira,
enquanto o tempo não pára,
enquanto o sangue corre-me nas veias.

Porta aberta, abrigo de saudades,
meu ardente coração clama por ti.
E a poesia está cansada de esperar.


Katia Drummond
Em outono português. Sintra, 2005.

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terça-feira, 6 de março de 2007


AO TEU SILÊNCIO

Doeu em mim o teu silêncio aflito
Amarga dor de pássaro cinzento
Ferindo em grito todas as penumbras
Cravando a face em lágrima cativa
A transformar a dor em lancinante calma
Enquanto o sangue brota em carne viva.

Se o sopro do meu ser em poesia
Chegar a tempo de curar-te a dor
Ou de aliviar-te essa agonia
Aceita pois, meu outonal rebento
E faz de conta que eu te dei guarida
Que as begônias floram o teu caminho
E que as cigarras cantam em tua vida.


Katia Drummond
Em outono português. Sintra, 2005.

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PARIS EN MOI

[Avec des ‘saudades’ de Paris, où j'ai laissé ma jeunesse.]

J’ai chanté Paris en pleine Discophage.
La Rue des Écoles m’attendait toujours.
J’ai lu Baudelaire, et visité des poètes.
Vendu des fleurs de papier, rêves, chimères.
J’ai dévoilé des impasses, et déshabillé des ruelles.
Toutes ses portes m’étaient ouvertes.
Toutes ses rues m’étaient belles !
J’ai changé des gestes, comme le font les dames.
J’ai brillé dans les nuits, plus que les actrices.
J’ai changé de scènes, et déliré dans la célébrité.
Je me suis endormie sous les lunes des marquises.

Je me suis réveillée me promenant dans les jardins.
J’ai vagué dans les places, les avenues.
Vécu des amours. Rendu des hommes heureux.
J’ai vu des larmes se transformer en cicatrices.
Écouté le tintement des cloches de Notre-Dame.
J’ai prié pour Dieu dans toutes les églises.
Marché sur les feuilles mortes des bois.
J’ai respiré les vapeurs nocturnes,
et me suis endormie sur la pelouse.
Je me suis reposée dans les gares,
pour ensuite prendre les métros.
J’ai fui de moi-même pour ne pas me souiller.

Tant de matins nus.Tant de nuits mal dormies.
Que de phantômes se promenant dans les petits forts!
Et moi, témoignant d’autre vies.
J’ai été bergère dans les champs d’Avignon.
Amie de Zola et de Voltaire.
J’ai lutté pour la tombée de la Bastille.
De la Belle Époque, je fus la jeune fille.
L’amante passionnée de Baudelaire.
J’ai traversé Paris dans ses hivers rigoureux.
J’ai aimé Paris dans ses étés banals.
Cueilli Paris dans des beaux printemps.
J’ai rêvé Paris dans ses nuits automnales.
Maîtrisé Paris comme um dompteur de lions.

A mon avis, Paris est une fille joyeuse.
Une femme de la vie, bien aimée.
Un écrin qui recèle mes secrets.
Un verger interdit, une pomme.
Un utérus qui encore me contient.
Je veux vivre Paris dans tous ses temps.
L’aimer dans mes délires, avec abondance.
Laver mon âme aux bords de la Seine.
Et me saoûler, pleine de douceur.

De ce que je fus à Paris, il ne me reste que le rêve.
Les vers des poèmes que je compose.
Et bien plus que le désir d’être infinie.
Je voudrais la posséder, comme peu l’ont fait.
Je voudrais l’ensemencer, comme les fous.
Dans le sang, dans la sueur et les entrailles.
A mon avis, Paris est ma patrie étrange.
La mémoire triste de l’aventure qui termine.
Et la larme lointaine qui me baigne.
Paris, en moi, c’est me posséder encore.


Katia Drummond
[Traduction: Jean Pierre Barakat. Beyrouth, Liban.]

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sábado, 3 de março de 2007



AMALGAMADAS ALMAS NUAS

Não nos deixemos sós, os dois, as duas.
Nossas amalgamadas almas nuas,
entrelaçaram nosso ir e vir.
Sem nós, não saberíamos seguir.
Qual alma gêmea, qual, encontraríamos
tão igualzinha a mim, tão igualzinha a ti?

Se juntos habitamos o mesmo templo,
se percorremos sempre a mesma estrada,
Se adormecemos sob os mesmos sonhos
e tatuamos os mesmos lençóis.
Se juntos somos tudo, somos nada
e se ardemos sob tantos sóis.
Se as nossas vidas vivem entrelaçadas,
se já nos entregamos um ao outro,
se não sabemos desatar os nós?

O que fazer então os dois sozinhos,
perdidos animais, fora do ninho,
qual de nós dois encontraria a porta,
se há tanto tempo essa cumplicidade
nos transformou em natureza morta?

Kátia Drummond

Ilustração: Paolo Farinati, 1890.


AVE PEREGRINA

Perdi toda a beleza da poesia.
Perdi a luz, o sonho, a fantasia.
Perdi o encanto que habitava em mim.
E tudo mais que eu vislumbrava, enfim.
Ao compreender aqui, agora, além,
que não sou nada. Que não sou ninguém.
Que a geografia é um mero conceito.
É a maldição, a praga, o bem desfeito,
que estraçalha a terra em mil pedaços.
Que amarra a gente em infinitos laços,
e que esses laços transformam-se em nós,
dos quais, virei escrava, algoz, refém.
Sem casa, sem família, sem ninguém.
Um espécie de ave peregrina,
que rotineiramente cumpre a sina.
Que migra do inverno pro verão,
como se a vida fosse uma estação
que espera o passageiro a cada trem,
indiferente a esse vai-e-vem.

Pária sem pátria, vivo em terra alheia.
Aranha sem tecer a própria teia.
Videira sem frutificar na vinha,
em terra que não foi nem será minha.

Quero ficar… mas tenho que partir.
Quero voltar… não tenho pra onde ir.

Camões, abre-me a porta do teu verso,
pois Deus me expulsou do Universo!


Katia Drummond
Em outono português. Sintra, 2005.

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domingo, 18 de fevereiro de 2007


A SANTA CEIA

A mesa sempre farta
e a casa muito cheia.
O eterno ritual da santa ceia,
regado de luxúria e de prazer.
E eu, sem trono e sem coroa de rainha,
reinando, absoluta, na cozinha.
Enquanto eles se matam de comer.


Katia Drummond
Em verão português. Sintra, 2005.

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sábado, 17 de fevereiro de 2007


BARCO DE PAPEL

Como se a terra corresse inteirinha atrás do rio,
a seguir serras e vales num enorme caminhar,
eu vejo a imensa saudade escorrer-se sobre mim.
Sei de onde ela partiu. Não sei onde vai chegar.

Como se o rio voltasse todo ao encontro da terra,
e, num abraço apertado, inundasse a solidão,
eu sinto a minha saudade, penitência dos aflitos,
desesperar-se. E, aos gritos, mergulhar na imensidão.

Se eu fosse a terra, eu cumpria meu destino de ser leito.
Se eu fosse o rio, eu seguia meu destino de ser mar.
Eu não sou terra nem rio. Sou um barco de papel!
Onde vai, pois, um barquinho de papel a navegar?


Katia Drummond
Em inverno português. Sintra, 2007.

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HANNAH

[Para a nova netinha, ainda bem guardadinha no casulo.]

Eis que surge no outono a primavera.
E faz-se nela a vida, ainda semente.
A floração do sonho e da quimera,
a brotar em solo fértil, corpo ardente.
A natureza-mãe sempre quisera
recriar do fértil sémen de um vivente,
a deusa angelical que sempre houvera.

Eis que desce do céu uma estrelinha.
Prenúncio de alegria e de doçura.
A viajar no tempo, qual fadinha,
até chegar na terra da ventura.
E ao crescer, a alegre sementinha
vai preenchendo a casa de candura.
Como o faz à criança a bonequinha.

Eis que cresce no ventre, protegida,
o fruto do amor em movimento.
A revelar, na força em si contida,
a evolução do ser. Novo rebento!
A engendrar, na transição vivida,
o renascer do próprio nascimento.
Como se fosse eu, de volta à vida!


Kátia Drummond
Num outono português. Sintra, 2006.

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ENQUANTO ANA TERRA NÃO VEM.

[Para Ana Terra Drummond. Com amor de vó-peregrina.]

Já vivi a intensidade exaustiva dos retiros.
Recitei todas as preces e tomei todos os votos.
Jejuei em busca de sanar as dores deste mundo.
Não matei, não roubei, não menti.
Cometi virtudes, purifiquei o corpo e a alma.
Realizei sonhos e multipliquei amores.
Convivi com todos os seres vivos e mortos.
Só não amei a Deus sobre todas as coisas.

Agora, resta-me estirar a rede na varanda,
acender a lua, deitar e sonhar.

Enquanto Ana Terra não acende o sol.


Katia Drummond.
Em primavera portuguesa. Sintra, 2005.

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domingo, 11 de fevereiro de 2007


LUMINA QUA SERA TAMEN

Trago-vos uma bandeja de porcelana azul,
com húmus, líquens e musgos.
Saboreeis, pois, prazerosamente a floresta.
As abelhas deitarão o mel sobre vossos corpos.
Lépidos pirilampos alumiarão, de raios de ouro,
vossos entristecidos e dormentes corações.
Vossos cabelos resplandecerão em luz.
O brilho dos vossos olhos iluminarão o breu.

E renascereis em paz!


Katia Drummond.
Em primavera portuguesa. Monte Estoril, 2005.

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SAMSARA

Nem passado
Nem futuro
Eu sou o presente
Pulando do muro.


Kátia Drummond.
Em primavera portuguesa. Sintra, 2005.

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ANJO À-TOA

Não busque no meu corpo a carne, a chama.
Nem veja no meu rosto uma consagração qualquer.
Eu sei que sou um anjo à-toa nesse mundo.
Um tiro certo, um poço fundo,
um precipício aberto, uma mulher.
O que é que eu faço dessa sensação estranha,
que me persegue e me apanha,
e me vira pelo avesso,
que não tem fim nem começo
e me faz o que bem quer?
O que é que eu faço dessa sensação perdida,
desvairada, enlouquecida,
displicente, amargurada,
se o meu sorriso anda tão comprometido
e se a gente passa e pensa,
sem recompensa, sem nada?
Eu quero ser seu anjo,
à-toa e vagabundo,
seu mistério o mais profundo
e você vem quando quiser.
Se você quer morrer de amor,
morrer de vício,
eu quero ser seu precipício,
seu amor, sua mulher.

• Poema: Kátia Drummond
• Música: Tamir Drummond
• Foto: Damir Frkovic
• Arranjo, voz e violão: Sávio Drummond

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