sexta-feira, 21 de agosto de 2009


ALMAGAMADAS ALMAS NUAS

Não nos deixemos sós, os dois, as duas.
Nossas amalgamadas almas nuas,
entrelaçaram nosso ir e vir.
Sem nós, não saberíamos seguir.
Qual alma gêmea, qual, encontraríamos
tão igualzinha a mim, tão igualzinha a ti?

Se juntos habitamos o mesmo templo,
se percorremos sempre a mesma estrada,
Se adormecemos sob os mesmos sonhos
e tatuamos os mesmos lençóis.
Se juntos somos tudo, somos nada
e se ardemos sob tantos sóis.
Se as nossas vidas vivem entrelaçadas,
se já nos entregamos um ao outro,
se não sabemos desatar os nós?

O que fazer então os dois sozinhos,
perdidos animais, fora do ninho,
qual de nós dois encontraria a porta,
se há tanto tempo essa cumplicidade
nos transformou em natureza morta?


Kátia Drummond.

Ilustração: Paolo Farinati, 1890. The Bettmann Archive.

2 comentários:

Kanauã Kaluanã disse...

E vestindo-me das cores em minha íris, cheguei até aqui numa caça pelo belo...

Já se presume as belezas impregnadas na trilha até o arco-íris... e nesta pairagem, detenho-me na "natureza morta" pintada com tanto requinte de sentimentos, poetisa.

(Em pensar que foi o meu lisboeta que me mostrou a trilha ao primeiro poema que li de ti... e tu aqui tão perto, tão brasileiramente universal.)

Katyuscia.

ETERNUM disse...

Eis-me chegada ao lugar onde os sonhos se transformam em palavras quentes e plenas de sentimento.
Fascinada pela viagem exuberante ao poder do poeta.


Eternum